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O Ano Era 1873: Os Monteiro da Vinagreira e a Lei do Sertão

O termo das Barras tem se tornado theatro das maiores desordens movidas pelos homens da situação.

1873, Piauí.

Não há lei, nem autoridade perante quem recuem da prática de actos reprovados e criminosos.

E como podia ser o contrário, se o juiz municipal, o Sr. bacharel Simplicio Coelho de Resende e ex-delegado de polícia Luiz de Souza Fortes, foram os primeiros a dar o exemplo, prendendo, ferindo e espancando a cidadãos inermes e pacíficos, como succedeu nas Saturnas de agosto último?

Chamamos a atenção das autoridades a quem competer para os factos já nos foram communicados d’aquella villa em carta de 26 de fevereiro ultimo, que transcrevemos, e confiamos, que sobre elles sejam tomadas as providencias necessarias, afim de serem punidos seus autores, evitando-se d’este arte sua reprodução.

Eis a carta:


No dia 6 de fevereiro pelas 7 horas da manhã, pouco mais ou menos, José Monteiro de Queiroz Junior e seu irmão Leoncio M. de Queiroz, moradores no lugar — Cacimbas de dentro — dirigiram-se à encruzilhada da estrada que segue para o lugar — Chorão — e nessa encruzilhada, armados, eles se designaram a todos que por ali passavam para trucidarem o velho Antonio Januario, e a seu filho de nome Manoel, residentes no lugar — Vinagreira — no ducto deste termo, quando fossem estes à roça, cujo caminho é que faz a encruzilhada de que trato: 



de espera não levarão os dois Monteiros muito tempo, porque Antonio Januario, seu filho Manoel, e um sobrinho já em busca de sua roça para trabalharem, em pouco tempo chegaram ao lugar da tocaia, e ao approximarem-se, do dentro do matto surgiu José Monteiro de Queiroz com a arma em frente gritando ao pobre velho que não fizesse acção se queria viver, e por Leoncio Monteiro de Queiroz foi-lhe logo descarregado uma cacetada;



o filho de Januario vendo seu pai no chão e accorrendo a seu primo conseguiu tomar a arma de José Monteiro, ficando este ferido com duas cortaduras na cabeça, uma facada no peito, um talho no braço, e um dedo cortado, e neste estado elle e seu irmão fugiram; Antonio Januario, seu filho e sobrinho vieram no mesmo dia para esta villa tratar-se e requerer logo corpo de delictto o qual sendo julgado pelo médico procedente, foi entregue a parte que deu sua queixa contra os Monteiros.


Os Monteiros por sua vez e por intermédio do inspector de quarteirão communicaram o ocorrido ao delegado de polícia, indo este ao lugar – Cacimbas de dentro – fazer corpo de delicto em José Monteiro de Queiroz Junior, o qual tambem foi julgado procedente pelo mesmo delegado, e remettido ao promotor publico para dar sua denuncia o que já fez.

Sube mais, que Silvestre José do Rego, no dia 18 do corrente na fazenda – Peixe – onde reside dirigiu-se acompanhado de seu vaqueiro Casemiro, e de seu escravo Miguel, a pouca distancia de sua casa, e mandara por seu vaqueiro e escravo derribarem a casa de residencia de Constancia preta velha e liberta, que na occasião achava-se no lugar – Alagoa de dentro – aonde tinha hido ver umas melancias, e chegando a liberta Constança, e procurando saber d’elle o motivo porque tinham derribado sua casa, por elle foi respondido – porque não queria que ella ali morasse, e que não fallasse, aliás mandaria d’alli com uma cacetada; a que a preta velha está aqui, e vem queixar-se do Sr. Silvestre.

Toda esta gente que tem commettido todos estes attentados que referimos, fazem-no convencidos de que não ha lei, que não deve ter a autoridade na formação de grupos semelhantes facciosos, como aqui está o Piauhy e gritando que a anarquia manda e sustenta todos aquelles individuos contra semelhantes criminosos.


A Imprensa : periodico politico (PI) - 1865 a 1889
(Redcorte original abaixo)












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